| |
ELE ACORDOU TARDE
Para José Geraldo
Em meio à penumbra do quarto, ele dorme: rosto sereno apoiado na palma da mão. Lentamente, vira-se de costas, espreguiça-se devagar e coça os cabelos louros e encaracolados. Ao se espreguiçar, seus pés ultrapassam o comprimento do colchão.
Abro a cortina, e a fresta da veneziana deixa vazar a claridade quente do sol. Vejo-o abrir os olhos com dificuldade e o céu do seu olhar passear entontecido pelo ambiente. Sua mão esquerda procura no criado-mudo o relógio de pulso, que passa para a mão direita e aproxima dos olhos. Sem espanto pelo horário tardio, deixa-se estar ainda sonolento a tentar entender se já é outro dia.
No canto, junto à porta, o aparelho de som está aberto e alguns CDs empilham-se sobre o tapete. A roupa ainda perfumada que usara na véspera jaz amontoada no chão, ao lado dos discos.
Ele percebe meu olhar de censura pela desordem e pela demora em se levantar. Finalmente, senta-se na cama:
_ E aí, mãe! O “rango” tá pronto?
Escrito por Tere às 23h50
[ ]
[ envie esta mensagem ]
CAÇULA
Para Tiago
Durante doze anos esperei por ele que, quando chegou, morou em mim e se comunicou comigo por movimentos, inundando meu íntimo de felicidade.
Após nove meses, mudou-se de morada e só então vi seu rosto e sua boca enorme que chorava para a vida.
Meu caçula é a criança, cuja alma infantil ainda me habita um pouco, fazendo-me sentir mais jovem do que na realidade sou. Meu filho, minha razão de viver, a única alegria da casa, o tagarela, o perspicaz e inteligente querubim, como o irmão, tem o céu no olhar e, com suas mãos de cura, alivia todas as minhas dores.
Meu anjo que tanto custou a vir, está querendo se despedir da infância e, quando eu menos esperar, como foi o mais velho, também se irá e me deixará a imaginar por que, sendo quem é, escolheu a mim para ser sua mãe. E ao ficar só, sentirei falta da sua alma sensível e perguntarei de quem serei e por quem viverei então. . .
Escrito por Tere às 23h49
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ ver mensagens anteriores ]
|