POR QUE ESCREVER CARTAS?
Qual inexplicável motivo me faz voltar a escrever, quebrando minha promessa de que jamais o faria outra vez?
Talvez sinta saudades de imaginar que alguém leia e realmente compreenda o que escrevo. Talvez sinta falta de me perder na ilusão de adivinhar o que sente com minhas palavras, de pensar se alguma vez se perguntou por que insisto em escrever sabendo que não terei resposta.
Na verdade, nessas horas, eu é que sou levada pela minha imaginação e não ela por mim.
Sinto vontade de compartilhar o que penso, e escrever para uma pessoa que não conheço e que não me responde é um modo singular de vibrar com ela na mesma sintonia. Por causa da ausência de respostas, sou a senhora dessa correspondência e, onipotente, imagino o que quero na solidão de minhas idéias.
Quando escrevo, sinto-me viva. Estou me expressando. Mesmo recebendo cartas imaginárias, estou me identificando. Ainda que em um mundo idealizado, eu existo. É melhor do que ficar deprimida. Quando em depressão, não me sinto bem, nem mal. Eu não me sinto! Não tenho vida real, nem tampouco sonho. Simplesmente não existo. Nada falo porque sei que não seria compreendida e, quando nesse estado, nem me interessa ser. É uma quase morte.
Ninguém é completamente compreendido e, portanto, a felicidade é sempre relativa. A falta de compreensão de nossos sentimentos mais profundos é a solidão em seu estado absoluto.
Escrevendo, preencho minha solidão de pleno entendimento, de pura cumplicidade.
Posso imaginar que alguém viaja nas minhas idéias. Posso imaginar que sente solidão também e que aquilo que escrevo possa, por alguns instantes, minimizar o vazio que o invade.
Uma idéia não escrita é como uma foto jamais tirada: uma criação que se esvai feito o sangue de um aborto.
Serão minhas cartas muito diferentes das demais que recebe? Talvez sejam iguais. Talvez se misturem na mesmice de outras cartas. Porém, posso imaginar que são únicas, que se destacam e que alguém, cheio de curiosidade, pensa de mim: “Quem será?” , “Como será?”, “O que fará?”
Viver na realidade do dia-a-dia com responsabilidade e dignidade e, ao mesmo tempo, povoar a alma de imaginações é um modo de ajeitar um pouco as rudezas da vida. É uma maneira de ser. Uma maneira minha ... de ser.
Já que a felicidade é feita de momentos, imagino ter mais momentos do que na realidade possuo e busco sintonia neles, embora desconfie que sintonia absoluta só exista quando ouvimos música com alguém de idêntica sensibilidade musical e, mesmo assim, não há de haver palavras. Quando a melodia toca a emoção, apenas os olhos se procuram, para não quebrar o instante.
Por enquanto, revolvo meus pensamentos com as imagens de que disponho, até que um dia, quem sabe, seja eu também uma imagem idealizada por alguém que tenha o cuidado de preservar as reflexões que não consegui musicar.
Escrito por Tere às 13h40
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